O lixo sempre foi um assunto presente na minha vida. Quando eu ainda estava na faculdade, participei de um projeto da Unesco que chamava-se O Lixo e a Cidadania. Era um projeto da Unesco, em parceria com a Prefeitura de São Bernardo do Campo e com a Universidade Metodista. A nossa parte no projeto era a seguinte: eu e mais dois amigos iríamos ficar indo a um lixão desativado (mas que ainda recebia lixo clandestino) para gravar depoimentos dos moradores do Lixão do Alvarenga, em São Bernardo, divisa com Diadema.
Os moradores do lixão não tinham auto-estima alguma, eles eram discriminados pela sociedade em geral e pelos moradores da favela do Alvarenga, que ficava antes do lixão. E nosso papel era o resgate da cidadania através dos depoimentos: alguém tinha interesse em ouvir a história deles.
Primeiros fomos tomando contato com os moradores até termos confiança e irmos ao lixão. Bom, esse era o plano, até o dia que não aguentávamos mais falar sobre algo que não conhecíamos e fomos ao lixão por conta própria. Jamais vou esquecer a cena da chegada, ao final da favela. É uma pilha de lixo que jamais eu vou conseguir explicar. Não lembro as medidas, mas sei que a altura era equivalente a um prédio de 40 andares e que era bem maior que um campo de futebol, pois pasmem, no meio do lixão havia um campo de futebol para os catadores! E ainda sobrava espaço.
Não há como descrever. O gás liberado pelo lixo dá um certo "barato" e eu saía de lá sempre atordoada. Vira e mexe explode um lugar, também resultado do próprio gás. Há uma cachoeira de chorume e tem uma máfia no lixo. Um dos manda chuvas sempre é o motorista da retroescavadeira, ele decide quem cata na primeira leva, quem cata na segunda leva... Conhecemos várias famílias, uma até com 4 gerações de catadores naquele lixão. Ouvimos diversas histórias chocantes, amargas e de amor.
Essa é uma das poucas fotos que tenho de lá
Por questões políticas, o documentário nunca se concretizou, mas minha relação com o lixo mudou a partir daí. Entendi que sou responsável pelo lixo que produzo. Passei a separar meu lixo, independente se a coleta seria separada ou não. Aprendi que há quem viva do lixo, muito além do que a gente imagina.
Criei coleta seletiva em prédio que morei, e sempre que possível, tento incentivar as pessoas que convivo a separarem o seu lixo.
Aqui a questão do lixo é muito mais caótica. O caminhão só passa uma vez por semana, o que nos faz estocar o lixo em casa. A casa estava sem gente, tem muito entulho espalhado por aí, e o caminhão não leva. As folhas enchem um saco de 100 litros por semana, que o caminhão também não leva. E para complicar de vez, nossa casa não tinha aquele suporte de lixo e os gambás e afins atacavam os sacos...
A primeira atitude foi criar o suporte para não ter que recolher mais o lixo da porta de casa. Claro que seguindo a idéia de aproveitar tudo o que temos por aqui, ainda mais o próprio lixo. Nessas andanças por aí, descobri perto da antiga casa a construção de um prédio que sempre descartava paletes, e fui pegando aos poucos e acumulando nas escadas da antiga casa. Quando viemos para cá, fizemos uma viagem de fiorino praticamente só com paletes.
Aproveitamos 4 vigas de paletes para fazer os pés do suporte. No pomar havia uma caixa dágua velha, jogada. Pegamos a caixa dágua e fizemos diversos furos no fundo para que a água da chuva não se acumule. E resolvemos 2 problemas: nos livramos da caixa dágua e conseguimos o suporte. Não ficou o mais bonito, mas ficou funcional.
Rapidamente a gente percebeu que temos que compostar. Ou a gente composta ou vai ficar compostando uma semana aqui em casa, até que o lixeiro leve. Compostar tb diminui muito a quantidade de lixo descartada. Praticamente só dispensamos materiais recicláveis e lixo de banheiro. Todo o resto vai para a composteira, que ainda não é a definitiva, não está correta, mas já é um comecinho. Estamos estudando e está como prioridade em nossa lista fazer a composteira definitiva, até porque, ela que nos dará a terra para a horta.
Sempre que cozinho, já deixo um potinho ao lado da pia, ali eu jogo os orgânicos e depois eles vão direto para a composteira.
Mas a questão não para por aí. Ainda precisamos reduzir a quantidade de lixo reciclável. A coleta uma vez por semana nos deu a real idéia da quantidade de lixo que estamos produzindo atualmente. Normalmente, por semana, junta-se dois sacos de 100 litros de lixo. Um absurdo em uma família de 3 pessoas. Por isso que evitamos comprar produtos embalados individualmente. Eu já liguei uma vez para a Nestlé para reclamar da quantidade de embalagem que vem na bolacha Calipso. E decidimos que vamos tentar comprar o mínimo possível de coisas industrializadas. Só assim para reduzirmos o uso de tantas embalagens!